Macron reage a Trump e diz que Europa não cederá a “valentões” em crise envolvendo a Groenlândia
Presidente da França, Emmanuel Macron, durante o Fórum Econômico Mundial, em Davos • 20/01/2026 REUTERS/Denis Balibouse
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou nesta terça-feira (21), durante discurso no Fórum Econômico Mundial de Davos, que a Europa não se deixará intimidar por pressões externas nem aceitará a chamada “lei do mais forte”. A declaração foi interpretada como uma resposta direta às ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que prometeu impor tarifas elevadas caso países europeus resistam à tentativa americana de assumir o controle da Groenlândia, território autônomo pertencente à Dinamarca.
Enquanto outros líderes europeus têm adotado um tom mais cauteloso para evitar uma escalada diplomática com Washington, Macron optou por um discurso mais duro. Segundo ele, aceitar esse tipo de pressão significaria abrir caminho para a “vassalização” da Europa.
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“A Europa não aceitará passivamente a lei do mais forte. Preferimos o respeito aos valentões e o Estado de Direito à brutalidade”, afirmou o presidente francês, destacando que o continente continuará defendendo a soberania territorial e as normas internacionais, mesmo em um cenário global que classificou como cada vez mais “sem regras”.
Tarifas e soberania no centro da disputa
As declarações ocorrem após Trump ameaçar impor tarifas de até 200% sobre vinhos e champanhes franceses, além de anunciar uma nova rodada de tarifas contra aliados europeus a partir de 1º de fevereiro. Segundo Macron, o uso de tarifas como instrumento de pressão política e territorial é “fundamentalmente inaceitável”.
O presidente francês alertou que a União Europeia pode reagir com medidas comerciais severas. Entre as opções discutidas estão tarifas sobre 93 bilhões de euros em produtos americanos, que haviam sido suspensas após um acordo comercial firmado no ano passado, e a possível ativação do Instrumento Anticoerção da UE, conhecido informalmente como “bazuca comercial”. O mecanismo permite restringir o acesso de empresas estrangeiras a licitações públicas e impor limites ao comércio de serviços, incluindo plataformas tecnológicas.
“É uma loucura termos chegado a esse ponto”, declarou Macron, ao defender uma resposta firme e coordenada do bloco.
Reunião de emergência e tensão transatlântica
Diante do agravamento da crise, líderes europeus decidiram convocar uma cúpula de emergência em Bruxelas, marcada para quinta-feira à noite, com foco na situação da Groenlândia e nas ameaças tarifárias dos Estados Unidos.
A relação entre Trump e a Europa se deteriorou rapidamente após o presidente americano afirmar que não recuará de seu objetivo de controlar a ilha ártica, considerada estratégica para a segurança internacional. A postura tem provocado instabilidade nos mercados financeiros e preocupação em setores industriais europeus.
Mensagens privadas e crise diplomática
A tensão aumentou ainda mais após Trump divulgar mensagens privadas trocadas com Macron, em um gesto incomum na diplomacia internacional. Na conversa, cuja autenticidade foi confirmada por fontes próximas ao presidente francês, Macron questiona diretamente a postura americana em relação à Groenlândia e sugere a realização de uma reunião do G7.
Para autoridades francesas, a divulgação das mensagens representou uma quebra da discrição diplomática. Macron afirmou que não pretende alterar sua agenda para encontrar Trump em Davos e reforçou que deixará o evento conforme o planejado.
Apesar das divergências, assessores do Palácio do Eliseu afirmam que o presidente francês mantém canais diretos de diálogo com Trump, por meio de ligações e mensagens fora dos meios diplomáticos tradicionais. Pessoas próximas a Macron avaliam, no entanto, que ele se tornou alvo do presidente americano por defender princípios democráticos e o respeito às instituições internacionais.
“Ao liderar a resistência, a França acaba se tornando um alvo”, afirmou à Reuters o parlamentar francês Pieyre-Alexandre Langlade, aliado de Macron.
